Insónias
"Contaram-me que existem homens queimando a vida a cuidar de jardins. Regam, transplantam, enxertam, podam, cavam - como se este contínuo trabalho de renovação os prolongasse para além de seus próprios corpos. Parece que a existência destes homens se reduz à lenta e misteriosa aprendizagem de nascer, morrer e renascer.
Na verdade, nenhum ciclo das estações impede aqueles homens de morrer. Parecem mais demoradamente, somente isso, porque os jardins são labirínticas arquitecturas mentais onde podemos resguardar o corpo de qualquer voragem do tempo.
A mim, basta-me o espanto da flor que murcha quando, no mesmo ramo, outra flor expande as pétalas ao sol.
Vivo na ilusão de conseguir enganar, alguma vez, o medo dos dias sem ninguém. Por isso construí jardins de areias e cinza, jardins de água e fogo, jardins de répteis e de ervas aromáticas, jardins de minerais e de pedras - mas todos abandonei à invasão da selva e das alucinações.
Hoje, sobrevivem em mim outros jardins cuja obscuridade e penumbras me apavoram, e têm à entrada advertências como esta:
LE GUSTA ESTE JARDÍN QUI ES SUYO? EVITE QUE SUS HIJOS LO DESTRUYAN!
Olho pela janela. Branco e mais branco, semelhante ao branco da morte. Eu sei, cada homem possui um deserto dentro de si. Nele caminha deixando minúsculos sinais da sua breve passagem, mas o sangue é facilmente bebido pelas areias e nenhum oásis de felicidade irrompe.Perdi a noção do mundo que me cerca e retém aqui. Tudo abandono a pouco e pouco. O deserto é cada vez mais deserto. Já não vislumbro sequer a minha sombra, nem ouço ruído algum. Nem rastos de outros homens ou animais.
Apenas branco, e um zumbido de estrelas repercutindo-se no interir da solidão.
Não, não se pode viver sem amar. Por isso atravessei oceanos, arquipélagos, mares nocturnos, dei a volta ao mundo à procura do meu corpo.
Queria encontrá-lo, oferecer-lhe estas sementes secas de lótus que provocam o sono e a amnésia. Mas o tempo parou. Construí esta cabana num recanto perdido da floresta, e tenho tempo - tempo para entender o incessante movimento da Grande Roda da Vida.
Talvez eu possa voltar ao trabalho e acabar o meu livro! Mas a porta continuava a ser uma porta. Estava fechada; não, agora via-a aberta.
Resta-me agora a escrita, o eterno recomeçar sempre o mesmo livro, como se fosse uma condenação, um destino superior a que me sinto incapaz de fugir. Escrever para além do tempo possível, para além da memória que há-de existir do meu corpo. O fulgurante silêncio das palavras.
Longe daqui, tenho a certeza, morre-se aos poucos na imensa desolação dos continentes. O tempo parou, já o disse.
Um vulcão queima-me o sangue, põe a descoberto o conhecimento do meu Inferno - este livro onde o Cônsul Firmín nunca conseguirá escrever o seu...
Meu Deus! preciso de mais Gin, para que a lucidez do coração cesse também. Preciso beber, beber muito, para que a alma se perca, um instante que seja, na serenidade do meu próprio esquecimento.
O Cônsul leu e releu a frase, a mesma carta, todas as cartas inúteis, como as que num porto são entregues no navio com destino a alguém que se perdeu no mar. "
Al Berto in O Anjo Mundo


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