segunda-feira, 18 de junho de 2007

DEvaNeiOS

Os braços guiam o seu olhar. Abre lentamente os olhos semi-cerrados. O silêncio impregna a paisagem que se estende infinitamente. Sentir o calor percorrer o corpo. Gota a gota...
Abrir o coração à vontade e olhar fixamente o sol de uma tarde. Mergulhar os olhos na luminosidade total do Astro-Rei. Sentir a dor inicial, habituar o corpo a esse sofrimento; perder a noção do tempo, perder a noção do espaço... Mergulhar no Sol dolorosamente. Depois, muito depois, ele, o prazer da perda de referências nasce na alma. Continuar a fixar o Sol. Persistir no mergulho na luz. Não fechar nunca os olhos. Primeiro é um esforço de vontade, que logo se transforma num hábito... como a falta de ar, como a solidão, como a prisão da liberdade...
Mais tarde, passado o ponto de não retorno do abismo, ou que sei eu, talvez da atmosfera, deixa de ser dor ou prazer... a inércia do olhar sobre a luz é total. Impossível já desviar o olhar. O calor já conquistou todas as fibras do corpo, a luz já se instalou em todos os recantos da alma. O branco intenso apagou todas as memórias, todas os pensamentos... uma folha em branco... talvez uma paz... ele diria: uma Morte Branca, cremosa e suave como o leite, insensível como um coma.
Mais tarde, passado o ponto em que já se é não sendo, em que hipnotizados pela luz se libertam de todas as sensações, sobrevem a Morte Negra: os pequenos fios das recordações de nós nos outros, como frágeis fios de Ariadne, são cortados pelos tempo... um a um...
E renascemos para nós próprios. Entre a ternura carinhosa de uma Morte Branca e o frio esquecimento da Morte Negra temos mil e um sorrisos de alegria coloridos de todas as cores do Mundo.

0 comentários: